Nem todo buraco no funil precisa ser tapado

— Tiago Sousa

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Nos artigos anteriores, o Seu Edmilson saiu de “uns 200 clientes fixos” para uma folha de caderno com sete estágios e quatro parênteses de “alguns somem aqui”. Foi uma virada de olhar — mas, como ficou dito ao final do último texto, virada de olhar não muda financeiro.

Esse texto é sobre o passo que vem depois. E ele tem uma pergunta que parece óbvia, mas não é: vale a pena cuidar de qual desses buracos?

A tentação, depois de enxergar um funil pela primeira vez, é querer tapar tudo. Já que a sangria apareceu, vamos estancar. Já que tem gente sumindo no “liga → traz o carro”, vamos rastrear todas as ligações. Já que tem gente sumindo no “traz o carro → autoriza”, vamos seguir cada orçamento até o cliente responder.

Essa tentação é o atalho mais rápido pra digitalização que não dá certo. É exatamente o caminho que levou a Carla, do artigo quando o sistema deixa de fazer sentido, a comprar um CRM e abandonar em quatro meses. Não foi falta de funil. Foi excesso de ambição em tapar tudo de uma vez.

Então: vamos voltar à folha de caderno do Edmilson. E dessa vez não vamos perguntar o que está vazando. Vamos perguntar o que vale o esforço de não vazar.


Voltando à folha de caderno

Encontrei o Edmilson de novo uma semana depois. A folha ainda estava no bolso da camisa, agora com vinco de quem dobra e desdobra muitas vezes.

— Pensei nessa folha a semana inteira.

— Pensou o quê?

— Pensei que se eu fosse cuidar de cada um desses parênteses, eu ia precisar parar de mexer em carro pra cuidar de gente que ainda não é cliente. E isso eu não vou fazer.

Ri.

— Ainda bem.

Ele me olhou meio desconfiado.

— Você disse a semana passada que isso aqui era importante. Agora tá rindo que eu não vou cuidar?

— Não tô rindo de você não cuidar. Tô rindo de você ter chegado, sozinho, na pergunta certa. A pergunta certa não é como cuidar de tudo. É o que vale a pena cuidar. E você já entendeu que não é tudo. Isso aí, oitenta por cento do trabalho já foi feito.

Ele relaxou. Desdobrou a folha e colocou em cima do balcão.

— Então me ajuda a separar.


Os três tipos de buraco

Olhando o funil do Edmilson, dá pra agrupar os parênteses em três categorias — e cada categoria pede um tipo diferente de decisão.

Buracos baratos pra tapar, com retorno alto. São aqueles onde o esforço de não perder a pessoa é mínimo — segundos de atenção, uma mensagem, uma confirmação — e o valor do que se ganha é grande. O caso clássico, na oficina do Edmilson, é o do Gol da sexta-feira que abriu o primeiro texto da série: alguém ligou, marcou pra segunda, e ninguém confirmou. Bastava uma mensagem no domingo. Custo: trinta segundos. Retorno potencial: um serviço de R$ 250 a R$ 900. Esse é o tipo de buraco onde não cuidar é prejuízo escandaloso.

Buracos caros pra tapar, com retorno duvidoso. São aqueles em que rastrear a pessoa exige um trabalho desproporcional ao que ela representaria. Por exemplo: cada vez que alguém para na porta da oficina pra perguntar “vocês fazem alinhamento?” e segue, o Edmilson teria que parar de mexer no carro, pegar o nome, anotar contato, ligar dois dias depois. Pra cada pessoa que ele recuperasse, ele perderia produção em vinte. Esse é o tipo de buraco onde tapar custa mais caro do que deixar aberto.

Buracos do meio. São a maior parte. Casos em que dá pra tapar com algum esforço, mas dá também pra ignorar sem catástrofe. O cliente que veio uma vez e não voltou pra revisão — vale ligar depois de seis meses lembrando? Talvez. Depende de quantos clientes recorrentes ele tem, de quanto custa uma ligação dessas, de quanto vale uma revisão. Esse é o tipo de buraco onde a decisão depende do contexto, e não tem resposta universal.

Olhei pro Edmilson.

— Dos sete estágios que você desenhou, onde estão os buracos baratos com retorno alto?

Ele pensou. Apontou pro segundo parêntese — o do “liga → traz o carro”.

— Aqui. Esse aqui me incomoda. Eu sei que o Wesley marca gente que não aparece, e a gente nunca vai atrás. E uma mensagem dessas — confirmando — é coisa de segundo.

— Tá. E onde estão os caros com retorno duvidoso?

— O começo. “Soube que existe → liga”. A gente não tem como rastrear quem soube e não ligou. Nem dá pra começar. Isso aí é trabalho de quem faz propaganda, não meu.

— E o resto?

— O resto eu não sei. Tem o “traz o carro → autoriza”, que eu acho importante mas dá trabalho. Tem o “voltar uma segunda vez”, que era bom melhorar mas não é urgente. Esses eu vou pensar com mais calma.

— Pronto. Você acabou de fazer uma triagem que muita empresa grande não faz.


A triagem que muita gente pula

O que o Edmilson acabou de fazer — separar o funil em buracos que valem o esforço e buracos que não valem — é o tipo de pensamento que ferramenta nenhuma faz por ninguém. É decisão de gestão, não de software.

E é exatamente esse tipo de decisão que falta na maioria das digitalizações que dão errado. A pessoa olha pro funil, vê os parênteses, e quer um sistema que cuide de tudo. Compra um CRM completo, ativa todas as automações, configura todos os pontos de contato. Em quatro meses, descobre que está passando mais tempo alimentando o sistema do que atendendo cliente. Volta pro caderno, ou para de operar o sistema. A história já foi contada na série anterior deste blog.

O que o Edmilson fez é diferente. Ele olhou pros sete estágios e perguntou: dos parênteses, qual eu vou perder o sono se eu não cuidar? Um. Talvez dois. O resto pode esperar, pode ser ignorado, pode ser resolvido depois — ou pode nunca ser resolvido, e a oficina continua existindo bem assim mesmo.

Essa triagem é o que define se a digitalização vai entrar pequena e útil, ou grande e abandonada.


A Patrícia, fazendo a mesma conta

A Patrícia, quando fez o exercício, chegou num lugar parecido — e diferente.

Pra ela, o buraco caro com retorno duvidoso é o início do funil: gente que segue ela no Instagram, vê os posts, e nunca manda mensagem. Ela poderia, em tese, fazer campanha, criar conteúdo segmentado, rodar anúncio. Não vai. Custo desproporcional pro porte do negócio dela.

Já o buraco barato com retorno alto, no caso dela, é diferente do Edmilson. É o “atende uma vez → não remarca”. A Patrícia tem 40 clientes ativas porque elas remarcam. Uma cliente nova que atende uma vez e não volta é, na prática, faturamento perdido recorrente — porque depilação é serviço de retorno em 20 ou 30 dias. Não cuidar dessas pessoas significa, ao longo de um ano, perder dezenas de clientes que poderiam ter virado ativas.

E o jeito de cuidar é simples: uma mensagem três semanas depois do atendimento. “Oi Joana, tudo bem? Faz três semanas que a gente se viu, se quiser eu já deixo marcado pra próxima.” Custo: dois minutos. Retorno potencial: uma cliente recorrente a mais.

A Patrícia hoje não faz isso. Não porque não saiba que deveria — ela sabe. Porque com o caderno na maleta, sem nenhum tipo de lembrete sistemático, fazer isso pra 40 clientes em momentos diferentes do mês é cognitivamente inviável. Ela esquece. E o que ela esquece, ela perde.

Esse é o ponto em que o caderno começa a custar caro — e ela já enxerga.


Onde uma ferramenta começa a fazer sentido

Aqui chega a parte que precisa ser dita com cuidado, porque é onde a maioria dos textos sobre pequeno negócio escorrega pro pitch de produto.

Vou tentar não escorregar.

Tanto o Edmilson quanto a Patrícia chegaram, sozinhos, num lugar específico: cada um identificou um buraco que vale a pena cuidar. Não cinco, não os sete, não “o funil inteiro”. Um. No Edmilson, é a confirmação de quem marcou e não apareceu. Na Patrícia, é o lembrete de retorno três semanas depois do atendimento.

Pra cuidar desse um buraco, nenhum dos dois precisa de CRM completo, plataforma robusta, suíte de automação. Eles precisam de uma coisa simples: um lugar onde anotar que uma pessoa marcou, e uma forma de lembrar de mandar uma mensagem antes do compromisso. No caso da Patrícia, com a variação de ser depois do atendimento, não antes.

Pode ser uma planilha. Pode ser um lembrete no Google Calendar. Pode ser um post-it bem cuidado. Pode ser uma ferramenta dedicada. O que importa não é qual a ferramenta — é que a ferramenta resolva exatamente o buraco identificado, e não tente resolver mais nada.

É aí que entra a forma como o Nexus pensa, e por que ele existe diferente de outros sistemas.

A maioria das ferramentas de gestão começa pelo catálogo de funcionalidades. Tem CRM, tem agendamento, tem disparo de mensagem, tem painel, tem relatório, tem integração. O empreendedor compra o pacote, ativa tudo, e tenta encaixar a operação no formato da ferramenta. Em quatro meses, está afogado.

O Nexus começa pelo lugar oposto. Antes de qualquer recurso ser ligado, tem uma conversa onde o problema é mapeado — exatamente como o Edmilson e a Patrícia fizeram nas folhas de caderno deles. Dessa conversa, sai um diagnóstico: qual buraco vale o esforço de tapar, e qual não vale. Aí, e só aí, alguma coisa é configurada. Configura-se o que faz sentido pro problema mapeado, e nada além disso.

No caso da oficina do Edmilson, hoje, isso provavelmente significaria: registrar quem ligou pedindo orçamento ou marcando serviço, e uma confirmação automática no dia anterior. Mais nada. Não precisa de catálogo de peças, não precisa de financeiro integrado, não precisa de dashboard. Só o buraco que ele identificou como o que dói mais.

No caso da Patrícia, significaria outra coisa: registrar cada atendimento com data, e um lembrete automático três semanas depois pra mandar mensagem de retorno. Mais nada.

São duas configurações pequenas, em duas operações diferentes, atacando dois buracos específicos. Nenhuma das duas é “implantar um sistema”. Cada uma é tapar um buraco que o próprio empreendedor identificou — usando uma ferramenta como apoio, não como protagonista.

Esse é o ponto onde a ferramenta deixa de competir com o caderno e passa a complementar. Porque o caderno continua fazendo o que ele faz bem (registrar atendimento, anotar observação, segurar a operação do dia). A ferramenta entra só no lugar específico onde o caderno já estava custando caro — e em nenhum outro.


A diferença entre tapar buracos e instalar sistema

Vale dizer com clareza, porque essa diferença é o que sustenta tudo.

Instalar sistema é o que acontece quando o empreendedor compra uma plataforma com vinte funcionalidades e tenta usar todas. Quase sempre termina em abandono — não por preguiça, mas porque o esforço de manter o sistema cheio supera o ganho que ele entrega.

Tapar buraco é o oposto. É identificar um ponto específico da operação onde está vazando valor, escolher uma forma mínima de cuidar daquele ponto, e ignorar deliberadamente todos os outros. Pode ser que, daqui a seis meses, um segundo buraco comece a doer e mereça ser tapado também. Aí sim, a ferramenta cresce — uma camada por vez, sempre validada pelo problema, nunca pela funcionalidade disponível.

Essa é a diferença entre digitalização que dura e digitalização que termina no cemitério de software em quatro meses.

O Edmilson, hoje, está pensando em tapar um buraco. Não está pensando em instalar sistema. A diferença parece sutil, mas é o que vai definir se daqui a um ano ele ainda estará usando uma ferramenta nova, ou se estará de volta com os posts-its caindo da bancada.

A Patrícia, idem. Não está pensando em digitalizar o negócio. Está pensando em parar de esquecer de mandar mensagem três semanas depois do atendimento. É um problema específico, com um valor mensurável, com uma solução mínima.

E quando a digitalização entra desse jeito — pequena, específica, escolhida pelo empreendedor depois de enxergar o funil — ela tende a vingar. Porque ela não está pedindo nada do empreendedor que ele não tenha pedido a si mesmo primeiro.


Fechando a série

No primeiro artigo, começamos com uma palavra que faltava: o pequeno empreendedor não tem nome pra quem entra em contato e ainda não fechou. Esse nome ausente — lead, num vocabulário, ou a categoria do meio, em qualquer outro — é o que faz com que tanta gente desapareça da operação sem deixar rastro.

No segundo artigo, vimos que existe um caminho que essas pessoas percorrem, com ou sem alguém olhando. O funil não é teoria de marketing — é a forma como qualquer negócio que vende alguma coisa, do tamanho do Edmilson, opera todo dia. Nomear o funil é começar a ver o que sempre esteve acontecendo.

Nesse terceiro, vimos que enxergar não basta. Precisa decidir o que vale o esforço de cuidar. E essa decisão é o que separa quem usa ferramenta como apoio de quem usa ferramenta como muleta.

A Patrícia, em algum momento entre esses três textos, marcou conversa com a gente. O Edmilson, na última vez que conversamos, falou que ia “pensar com mais calma” — o que, na boca dele, parece significar que vai pensar mesmo, sem pressa, e que talvez volte a procurar daqui a algumas semanas. Tudo bem. Os dois funis continuam rodando. Os parênteses continuam abertos. E os dois, agora, sabem onde estão.

O passo seguinte é deles, no tempo deles.

E essa, no fim, é a forma como o Nexus entende digitalização: uma decisão tomada pelo empreendedor depois de enxergar a operação dele, e não uma promessa vendida antes.


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