O que fica depois que a sessão acaba

— Tiago Sousa

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No texto anterior, a Letícia descobriu um vão na operação dela — o pedaço entre marcar uma primeira conversa e a paciente aparecer na sala do Zoom. Vão que ela chamava de “sempre é assim”, e que passou a ter nome.

Esse texto é sobre outro vão. Um que ela ainda não tinha visto.


A terça-feira às dez da noite

A Letícia me mandou áudio numa terça à noite. Tinha atendido seis pacientes naquele dia, dois online e quatro presenciais. Estava de pijama, na sala, com o caderno de anotações aberto no colo.

— Tô tentando lembrar o que a Marina falou hoje cedo. Sobre o pai dela. Era uma frase boa, eu pensei na hora que ia voltar nisso semana que vem. E agora não lembro como ela formulou. Lembro do tema, lembro de que tinha alguma coisa importante na escolha de palavra dela. Mas a palavra exata sumiu.

— Você não anotou na hora?

— Não. Eu não anoto durante a sessão. Atrapalha. A paciente percebe que eu desviei a atenção pra escrever. Então eu deixo pra anotar depois. E depois, com seis sessões na cabeça, eu lembro do geral. Do específico não.

— E quanto custa não lembrar do específico?

Ela ficou em silêncio por uns segundos.

— Custa que semana que vem eu vou começar a sessão um passo atrás. Vou ter que perguntar pra ela “como foi a semana”, em vez de já entrar onde a gente parou. Custa que o trabalho fica mais raso. Custa que ela não percebe — mas eu percebo.


O que a memória não guarda

A Letícia faz o que quase todo terapeuta faz: confia na memória pra ponte entre uma sessão e a próxima. Atende, sai da sala, e depois — no fim do dia, ou no dia seguinte de manhã — abre o caderno e anota o que lembra.

O que lembra. Aí está a coisa.

A memória, do jeito que ela funciona, guarda bem o tema central da sessão. “A Marina falou do pai.” Guarda mal a frase exata, o tom, a palavra escolhida. E guarda pior ainda o que a paciente disse de passagem, no minuto vinte e três, e que a Letícia anotou mentalmente como “voltar nisso” sem voltar nunca.

Em volume baixo, a memória basta. Cinco pacientes na semana, fácil. Vinte e dois, como a Letícia, começa a apertar. Trinta, vira impossível — e a profissional não percebe que virou impossível, porque o que ela esquece, ela não sabe que esqueceu.

É o vão entre uma sessão e a próxima. Sete dias em que a paciente vive a vida dela e a terapeuta tenta segurar, na cabeça, o fio do que foi conversado. Sem nada que registre, o fio afina. Em algumas relações terapêuticas, arrebenta.

A Letícia, na terça à noite, estava sentindo o fio afinar.


A transcrição que já existe

Tem uma coisa que a maioria das psicólogas que atende online não sabe ou não usa: o Zoom gera transcrição automática da sessão. É um recurso da própria ferramenta. Ao final da chamada, fica disponível um resumo do que foi falado, com fala identificada por participante.

Isso, dito assim, parece a solução do problema da Letícia. Não é tão simples — e o jeito de usar separa o cuidado profissional do atalho que destrói carreira.

Primeiro, e mais importante: transcrição de sessão é dado clínico sensível. Pra existir, precisa de consentimento explícito da paciente. Não basta avisar no início. Idealmente está no contrato terapêutico, com a paciente sabendo o que é gravado, o que é transcrito, onde fica guardado, e por quanto tempo. Isso não é zelo excessivo — é o que o Código de Ética da profissão pede, e o que a LGPD exige pra dado de saúde.

Segundo: transcrição automática erra. Erra em sotaque, em voz baixa, em emoção. Não substitui escuta. O que ela faz é diferente — ela devolve à terapeuta, depois da sessão, a possibilidade de revisitar a fala exata. Não pra anexar à ficha como verdade, mas pra usar como apoio à memória dela. “Ah, foi isso que ela disse. Era essa a palavra.”

Terceiro: a transcrição é da terapeuta, não do sistema. Quem decide o que vira anotação, o que vira insight pra próxima sessão, o que vira anamnese, é ela. A máquina ajuda a lembrar. O trabalho clínico continua sendo dela, do início ao fim.

Visto assim — com consentimento, como apoio, sob controle da profissional — a transcrição deixa de ser truque de produtividade e vira o que ela é mesmo: uma forma de a Letícia chegar na sessão de semana que vem com o fio inteiro na mão, em vez de tentando lembrar o que a Marina disse sobre o pai.


O que falta pra isso virar prática

Sabendo que a transcrição existe, falta uma coisa simples: ter um lugar onde ela viva organizada por paciente. Hoje, se a Letícia for usar, a transcrição fica perdida na conta do Zoom — uma pasta com arquivos cronológicos, sem amarração com agenda, sem ligação com quem é cada paciente, sem nada que conecte aquela transcrição à próxima sessão marcada.

Se ela quiser revisitar a sessão da Marina antes da próxima quinta, vai ter que caçar no Zoom, identificar pelo horário, abrir, ler. Mais um vão. Mais sete passos.

É aqui que o Nexus entra — e entra pequeno, como sempre.

A integração com o Zoom dentro do Nexus, que já está ativa, faz com que cada sessão criada na plataforma esteja amarrada a um paciente específico. A transcrição que o Zoom gera não fica órfã: fica no histórico daquela paciente, junto com as sessões anteriores, ao lado da próxima sessão marcada. Quando a Letícia for preparar a quinta, ela abre o perfil da Marina e tem tudo num lugar só — a agenda, o histórico, e o que foi falado da última vez.

Nada do trabalho clínico foi terceirizado. A transcrição continua sendo apoio, não prontuário. O consentimento continua sendo responsabilidade da terapeuta. A ficha da paciente continua sendo escrita por ela, com a profundidade que ela escolhe. O Nexus só resolve o problema de onde a informação mora — pra que ela não viva espalhada entre o Zoom, o WhatsApp, o caderno e a cabeça da profissional num fim de terça-feira.


A virada da Letícia

Mandei o áudio de volta pra Letícia explicando isso. Ela respondeu na manhã seguinte:

— Eu nunca tinha pensado na transcrição como apoio. Pensava como ameaça. “E se vazar?” Mas se eu uso com consentimento, e fica guardada no lugar certo, ela me devolve uma coisa que eu já estava perdendo.

— E o que você estava perdendo?

— A continuidade. O fio entre uma sessão e a próxima. Eu achava que tinha. Mas no dia em que a Marina perguntar “lembra do que eu falei do meu pai semana passada?”, e eu não lembrar — aí eu vou saber que não tinha.

Ela ficou um tempo sem mandar nada. Depois:

— Vou conversar com as minhas pacientes online. Ver quem topa. Começar devagar.

— No tempo de vocês.

— No tempo de cada uma.


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