A camada que vem depois da frequência

— Tiago Sousa

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No artigo anterior, o Seu Hélio descobriu que a Maria do Spot vale cinco vezes o que o João vale — sentando no balcão do Patas numa quinta de tarde, contando agendamento no caderno da Cláudia. Frequência: 11 visitas contra 3.

Esse artigo é sobre o que aconteceu duas semanas depois, quando o Hélio voltou pro mesmo caderno com uma pergunta nova. E sobre uma camada de valor que a frequência sozinha não mostra.


A Joana e o Roberto

Foi a Cláudia que puxou o assunto. Numa manhã de terça, enquanto o Hélio passava o cartão de um cliente, ela falou:

— Seu Hélio, fiquei pensando naquela conversa de outro dia. Da Maria valer cinco vezes o João.

— Pensou o quê?

— Pensei na Joana. A Joana do Bilu, aquela que tem o lhasa. A Joana vem direto, quase tanto quanto a Maria. Mas a Joana é diferente.

O Hélio fechou a gaveta e virou pra ela.

— Diferente como?

— A Joana sempre fica devendo. Vem, faz o banho, na hora de pagar fala “deixa pra próxima”. Eu anoto na bolinha do caderno. Na próxima vez ela paga a metade, fica devendo o resto. Sempre tem alguma coisa rolando.

E o Roberto, pai do Toby. Vem menos, umas cinco vezes no ano. Mas o Roberto manda Pix antes do banho começar. Sai sem dever nada, nunca.

A Cláudia parou.

— Aí eu pensei. Pela frequência, a Joana vale mais que o Roberto. Mas eu não tenho certeza se vale mesmo.

Olhei pro Hélio. Ele mexia na caneta do caixa, processando.

— Acho que você acabou de descobrir uma segunda camada.


Quanto vale uma visita que custa trabalho

Frequência é a primeira camada que aparece quando o pet shop começa a olhar clientes como pessoas. É a medida visível. Mas é também uma medida bruta — trata todas as visitas como iguais, como se uma visita da Maria, uma da Joana e uma do Roberto fossem a mesma unidade no caixa.

Não são. Toda visita carrega uma cauda invisível: o esforço que o pet shop teve depois pra fechar o caixa daquela visita. Cliente que paga na hora, em dia, sem reclamar — a cauda é zero. Cliente que fica devendo, atrasa, esquece de mandar o Pix — a cauda é a Cláudia mandando mensagem três vezes no mês seguinte, é o desconforto de cobrar, é o clima quando a Joana volta pra um novo banho e ainda tem R$ 80 de duas vezes atrás.

A cauda não aparece no faturamento bruto. Aparece em outro lugar — no tempo que vira gestão de cobrança em vez de atendimento.

É por isso que a frequência mente. Não no que mostra. No que esconde. Uma visita da Joana, em valor líquido, vale menos que uma visita do Roberto — mesmo que o ticket bruto seja igual. Porque a Joana custa em cobrança o que o Roberto não custa. E o Hélio nunca tinha medido isso, porque a forma como ele recebia pagamento não mostrava.


O sistema que mistura quem paga

Pedi pro Hélio mostrar como ele rastreia pagamento hoje.

— Caderno tem a bolinha pra quem fica devendo. PDV registra venda fechada. Quando é Pix, eu confiro no celular se caiu. Quando é cartão, a maquininha mostra na hora.

— E quando o cliente sai devendo?

— Marco no caderno e tento lembrar.

Tento lembrar.

Ele riu.

— Tento. Às vezes esqueço.

O PDV registra venda fechada — não venda aberta. Cliente devendo aparece no caderno e na cabeça do Hélio, mas não no sistema. O Pix recebido cai no extrato bancário — mas não amarrado a cliente. O extrato mostra “Pix de Joana Silva, R$ 80”. Quem cruza esse Pix com a visita da Joana de uma semana atrás é o Hélio, de memória.

A informação de pagamento mora num quarto lugar, separado dos três anteriores. E pior — ela mora num lugar que não conversa com o cadastro do cliente. O Hélio sabe que o Roberto paga adiantado porque vê o Pix chegar antes do banho. Mas se quisesse responder “quantos clientes do Patas pagam adiantado por Pix” — não dá. Teria que folhear extrato, cruzar com agendamento, fazer a conta. A mesma geografia do artigo anterior: a informação existe, mas existe espalhada, e por isso é invisível pra qualquer pergunta que envolva olhar o conjunto.


Quando o pagamento vira parte do cliente

Se o Pix recebido cair dentro do mesmo sistema onde mora o cadastro do cliente, e ficar amarrado à pessoa que pagou, alguma coisa muda. Ao lado do nome da Joana, não aparece só “8 visitas em 12 meses”. Aparece também “taxa de atraso: 60%. Média de dias em atraso: 18.” Ao lado do Roberto, “5 visitas. Pagamento antecipado em 5 de 5.”

Esses números não eram possíveis antes. Os dados existiam — espalhados em caderno, WhatsApp e extrato. Mas eram impossíveis de olhar juntos, e por isso impossíveis de comparar.

O Pix integrado dentro do Nexus, via Asaas, está em fase final — vai entrar em breve. Cobrança gerada no agendamento, link de Pix mandado pelo WhatsApp do próprio sistema, baixa automática quando o cliente paga. Tudo amarrado ao cadastro. O cartão via Asaas é passo seguinte, planejado pra uma versão futura. Por enquanto, o cartão continua na maquininha — como sempre esteve — e o Pix é a porta de entrada do pagamento centralizado.

O Pix vem primeiro porque é onde a economia é clara (sem taxa de maquininha) e onde o histórico fica mais limpo (todo Pix recebido fica amarrado a quem mandou). Começar pelo buraco que dói mais, validado pelo problema, nunca pela funcionalidade disponível.


A nova pergunta do Hélio

— Deixa eu ver se entendi — disse o Hélio. — Quando o Pix entrar dentro do sistema, eu vou ver, do lado da Joana, que ela atrasa toda vez. E vou ver, do lado do Roberto, que ele paga adiantado.

— Vai.

— E aí eu decido o quê com isso?

— Aí entra a próxima conversa. Você decide, por exemplo, quem merece desconto de fidelidade e quem não. Quem ganha brinde de aniversário do Patas e quem não. Quem entra na lista de quando chegar o vermífugo importado.

A Cláudia intrometeu:

— Então a Joana, mesmo vindo mais, talvez não devesse ganhar o brinde?

— Talvez não. Ou talvez sim, com condição: quando ela quitar o que está devendo. Depende do que vocês quiserem fazer. O Roberto, que vem menos, vira candidato a benefício — coisa que a Joana, do jeito que está, nem entra na conta.

O Hélio fechou os olhos um momento.

— Doze anos eu tratei a Joana melhor que o Roberto sem saber. Porque ela vem mais. Mas no fundo, ela me dá mais trabalho.

— E o Roberto vem menos, mas é o cliente que você queria ter trinta iguais a ele.

— Trinta iguais a ele eu queria.


No próximo e último artigo da série, vamos fechar o arco. O Hélio agora tem duas camadas — frequência (Maria vs João) e pagamento (Roberto vs Joana). Tem o suficiente pra começar a fazer alguma coisa com essa informação. E a coisa é simples de descrever e nada simples de implantar: tratar clientes diferentes de jeito diferente. Cashback, desconto progressivo, benefício amarrado a comportamento — sem o desconforto de parecer injusto.


Aprofundamento Comportamento humano Pagamento Valor do cliente A camada que vem depois da frequência

Continua em O benefício que vai pra quem merece — Sobre tratar clientes diferentes de jeito diferente, sem culpa, e por que isso custa menos que pagar pra atrair desconhecido.

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