Onde a Maria e o João viram pessoas

— Tiago Sousa

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No artigo anterior, o Seu Hélio, dono do Patas & Companhia, estava pensando em botar dois mil reais por mês em anúncio. Travou quando alguém perguntou: você sabe quanto vale um cliente seu? Não sabia.

Esse artigo é sobre o que aconteceu uma semana depois, quando o Hélio decidiu olhar. E sobre o que ele descobriu — que não era falta de informação. Era informação demais, em lugares demais, e por isso nenhuma.


A tarde de quinta no balcão

Combinei com o Hélio uma tarde mais calma. Quinta, 14h. A Cláudia atendendo o balcão, o Jefferson no banho com dois cães. O Hélio puxou um banco pra trás do caixa.

— Pode perguntar.

— Não vou perguntar. Vamos olhar juntos. Você falou que ia tentar entender quem é a Maria e quem é o João. Como você vai fazer isso?

Ele pensou.

— A Maria é fácil. Vem direto, schnauzer cinza, mora aqui perto. A Cláudia conhece. O João é mais difícil. Acho que é um casal, tem um cachorro grande, vieram umas vezes… ano passado? Não sei exatamente.

— E os outros 250 clientes do Patas?

Silêncio.

— Tá tudo aí, no caderno, no sistema, no WhatsApp. Mas eu nunca sentei pra olhar.

— Pois vamos sentar.


Os três lugares onde os clientes moram

O Hélio puxou três coisas em cima do balcão.

O caderno da Cláudia, da recepção, com cada agendamento numa linha — nome do dono, do bicho, horário, serviço, e um símbolo no canto: estrela pra quem paga em dia, bolinha pra quem deve, asterisco pra observação.

O WhatsApp do pet shop, com conversas em ordem cronológica, misturando cliente perguntando preço, cliente confirmando horário, e fornecedor de ração mandando lista.

E o sistema de PDV, um programa velho no computador da bancada, que registra venda por venda. Funciona como caixa registradora. Pra olhar histórico de cliente, exige procurar pelo nome, item por item.

Olhei pros três.

— Hélio, se eu te perguntasse agora: nos últimos doze meses, quantas vezes a Maria veio?

— Não sei. Umas oito? Dez?

— Vamos contar?

Levou quase quarenta minutos. Hélio e Cláudia folheando os cadernos mês a mês, contando “Maria do Spot”, cruzando com o sistema, conferindo no WhatsApp se faltava algo. A Maria tinha vindo 11 vezes. Total no ano: R$ 1.430.

Pedi o mesmo pro João. Foi mais difícil — não tinham certeza do sobrenome. Acharam três agendamentos espalhados. Ticket médio R$ 95. Total no ano: R$ 285.

O Hélio olhou pros números.

— Cinco vezes. A Maria vale cinco vezes o que o João vale. E eu trato os dois igual.


A informação que existe e não existe

O que aconteceu ali no balcão contém o problema inteiro. A informação sobre a Maria existia em três lugares — onze linhas no caderno, onze notas no PDV, dezenas de mensagens no WhatsApp. Não era falta de dado. Era excesso de lugar.

Pra responder uma pergunta simples — quanto a Maria valeu nos últimos doze meses — o Hélio precisou de quarenta minutos, três fontes e a memória da Cláudia. Quarenta minutos pra um cliente. O Patas tem 250 cadastrados. A conta inteira levaria semanas. E em uma semana o caderno do mês acabou, novas linhas foram escritas, e a conta já está desatualizada.

É por isso que a informação que existe em três lugares, na prática, não existe. Não é descuido. É geografia. Cada um dos três lugares serve bem pra sua função — o caderno pra agendar o dia, o PDV pra fechar o caixa, o WhatsApp pra responder cliente. Os três funcionam separados.

O que nenhum dos três faz é responder à pergunta que o Hélio fez pela primeira vez essa semana: quem é cada cliente meu, ao longo do tempo, somando tudo o que ele já fez aqui?


O agendamento como espinha

Dos três lugares, tem um que é o mais próximo de virar espinha do relacionamento: o agendamento. Toda vez que a Maria veio, foi porque marcou. Toda vez que o João veio, idem. O agendamento é o ponto onde a relação se materializa — é onde o cliente decide voltar, e onde o pet shop registra que ele voltou.

Se o agendamento for feito num lugar onde cada marcação fica amarrada à pessoa — não à página do dia, não ao horário, mas à pessoa Maria, com o histórico dela inteiro acumulando — então a frequência aparece sozinha. Não precisa de planilha, não precisa de contagem manual. Aparece, ao lado do nome da Maria, “11 visitas nos últimos 12 meses”. Ao lado do João, “3 visitas”.

O agendamento dentro do Nexus, que já está ativo na plataforma, é desenhado pra isso. Quando a Cláudia for marcar o próximo banho do Spot, ela vai estar marcando “Maria — 12ª visita”, não “quinta às 14h”. A diferença parece sutil. Não é. É a diferença entre operar com clientes que existem como pessoas e operar com agendamentos que flutuam soltos no caderno do mês. E mais: cada marcação dispara confirmação dois dias antes, lembrete na véspera, mensagem três dias depois perguntando se o Spot ficou bem. Não como spam — como continuidade do cuidado.


O que muda quando os clientes têm cara

O Hélio fechou o caderno e olhou pra Cláudia.

— A gente precisa parar de tratar a Maria e o João do mesmo jeito.

— Como assim, Seu Hélio?

— A Maria veio onze vezes. O João, três. Ela é cinco vezes mais cliente que ele. E a gente trata os dois igual porque a gente não sabia que era assim.

A Cláudia pensou.

— Pra mim sempre foi óbvio que a Maria é diferente. Eu conheço a Maria. Mas se você me pergunta quem mais é igual ela… aí eu não sei. Tem três, quatro que eu lembro. As outras, sei lá.

— É exatamente esse o ponto. A Cláudia consegue dizer “a Maria é diferente”. Mas a operação inteira não consegue dizer quantas Marias tem no Patas, nem quem são todas elas. E enquanto não conseguir, vocês oferecem o mesmo tratamento pra quem vale cinco vezes mais e pra quem vale um quinto. Não por escolha. Por falta de visão.

O Hélio voltou pro caderno. Folheou de novo, agora com olho diferente — não pra agendar, pra reconhecer.

— Tem mais Marias aqui. Eu sei que tem.


No próximo artigo, vamos avançar um passo. Frequência conta uma parte da história — não conta tudo. A Maria vem onze vezes por ano. Mas existe também a Joana, que vem oito vezes e atrasa o pagamento em quase todas. Existe o Roberto, que vem cinco vezes e sempre paga adiantado por Pix. Frequência é uma camada. Como o cliente paga é outra — e essa, ainda mais que a frequência, separa cliente bom de cliente que dá trabalho.


Aprofundamento Comportamento humano Agendamento Valor do cliente Onde a Maria e o João viram pessoas

Continua em A camada que vem depois da frequência — Sobre o que o histórico de pagamento revela do cliente, e por que dois clientes que vêm a mesma quantidade de vezes podem valer coisas muito diferentes.

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